quarta-feira, 17 de julho de 2013

Por uma questão de milímetros


Quase onze horas da noite, ele estava muito incomodado com a inclinação da poltrona, em qualquer sinaleira vermelha aproveitava aquele tempinho para esticar-se, estalar as costas e procurar uma posição melhor. Mesmo distraída, sentia de longe aquela tensão misturada com pressa, afinal, logo que a sinaleira esverdeasse era mão na marcha! Parecia não agüentar, que não podia mais agüentar, enquanto dirigia tentava encontrar uma posição mais confortável. Era quase uma discussão de relacionamento, só que com linguagem corporal: a máquina queria que o motorista sentasse de uma maneira e este queria sentar-se de outro. Com certeza não conseguiu vencer a discussão. 

Observo. Logo em outras esquinas, pareciam cúmplices, homem e máquina. Era incrível o quanto ele se aproximava dos carros da frente, quase encostando. Sabia exatamente quantos milímetros de distância precisava para que aqueles metros de ônibus não se tornassem um acidente no trânsito. Quantas vezes por dia ele fazia aquela aproximação ? Ao mesmo tempo sutil e corajosa. Claro que precisaria de muito treino. Precisaria fazer muitas vezes por semana, dia e hora. Aquele barulho era do motor ou do homem? Mas logo a coluna incomodava. No sinal fechado eu esperava ansiosamente para sentir a emoção de vê-lo, homem-motor, "encostar" no carro da frente. Para a quebra de minhas expectativas, era o momento dele levantar-se e ajeitar a toalha de seu time de futebol, a qual cobria a cadeira desgastada, quase sem forro, numa tentativa - mal sucedida - de mais conforto. Só de imaginar que aquele homem-motor era capaz de tanta coragem, imaginei que a profissão era antecipada de um alistamento, com testes de vigor físico, testes de saúde mental e corporal. Devem existir filas de milhares de homens esperando ser recrutados! Eles estão em todo o território. Será que em todo território eles testam os nervos por milímetros!? 

Desconfio de imediato. Se eles são tão corajosos, se conhecem tão bem a máquina que dirigem, se conseguem transportar tantas vidas em segurança, se passam por testes de vigor físico e mental e são recrutados - como pode, aquele homem, se entregar às onze horas da noite à uma dorzinha nas costas?! E se ele for apenas "mais um trabalhador"?! Como explicar tantas habilidades? Mesmo sem auto-confiança, sem treinamentos, sem forte vigor físico e mental, sem controle emocional e sem saber se vai transportar tantas vidas em segurança...?!

Aposto numa complexa simbiose entre o homem e a máquina. A confusão que deve ser desfeita está aqui, no seguinte questionamento: em que momento o homem motorista viraria homem-motor? Qual o sentido de seu trabalho? Isso reflete bem como os dois se comportam e como se comportam com os dois. Para sua ação diária, o homem e a máquina precisam de boa aparência, combustível, comunicação através de sinais e até descansam por um mesmo período - e no mesmo lugar ! A segunda parte fica mais difícil, ninguém dá bom dia para o ônibus, claro! Mas essas cordialidades são um detalhe - ao menos num mundo tão veloz e de gente sempre atrasada. Mas, mesmo assim, todos nós precisamos dos dois, do homem e da maquina. Até o motorista da frente e o de trás. Imaginem se o homem ou a máquina quebram. E se quebram no meio de uma avenida? Seria um caos. 
Ninguém chegaria no trabalho, ninguém chegaria na escola, nem no hospital. Os carros começariam a formar filas gigantescas, engarrafando até as cidades mais tranqüilas. Pior seria se todos os homens e todas as maquinas quebrassem ao mesmo tempo. Mas quem tem controle sobre isso?! São coisas que acontecem. Acontecem?!

Percebo que esta confusão não pode ser desfeita com aquela simples pergunta. Os motoristas não são motores, não são máquinas. São trabalhadores vendendo sua força de trabalho, seu tempo de vida, para que, em troca, possam comprar moradia, vestimenta e alimentação. Eles sentem dores na coluna. Quem sabe se estão com os pés inchados depois de 10h trabalhando sentados? Imagino que devam ter muita dor de cabeça, são 10h sujeitos ao trânsito e a nenhum desanso. E quem sabe se aquele trabalhador, a cada vez que se aproxima, milimetricamente, do carro da frente, não está pensando em manter o auto-controle, não está pensando o quanto o seu trabalho é importante para que a cidade se movimente. E se ele estiver pensando em parar a cidade ?Eu, em seu lugar de homem, controlando aquela máquina, faria isso. Perderia a paciência.

Hora de descer. Mais ou menos 40min para chegar. Dou sinal, desejo boa noite, desço. A toalha era do time Vasco da Gama.

Liziane Correia é estudante da UFPB e usuária do transporte publico da capital